Na teoria da semântica, contexto é uma lista de coisas que o leitor precisa saber para entender um livro. Coisas como o nome do escritor, sua situação, a data que ele escreveu e até sua situação de vida. Na goleada sobre 4 a 0 no Grêmio, Renato Portaluppi mostra que a teoria serve também para entender o jogo de futebol e seus jogadores.
O treinador fez alterações que mudaram a situação da partida após a expulsão de Isla. Com isso, o Flamengo jogou melhor com um a menos e jogadores antes criticados, como Vitinho, Michael e Rodinei, brilharam.
É natural pensar o futebol de uma forma estática. Um time ou é bom ou é ruim. Um jogador presta, ou não presta. É um pensamento binário, que foca no que um indivíduo é com base numa ideia simplista de que para ser algo, basta fazer aquilo bem por várias vezes. Se alguém faz muitos gols, logo é goleador e assim será pelo resto da vida.
O problema é que o pensamento binário esquece que, enquanto humanos, nossas ações sofrem o impacto do ambiente externo. Se o que fazemos muda conforme o dia da semana (sextou!), humor ou momento de vida, o que um jogador faz é afetado pelos seus companheiros, pelo adversário e pela jornada que cada jogo se desenha.
Diante disso, não faz o menor sentido pensar dessa forma. É mais rico olhar o contexto das coisas e só depois ir para o indivíduo. Foi o que Renato fez na partida ao colocar Michael e depois Thiago Maia no intervalo.
O contexto do primeiro tempo
O Flamengo se caracteriza por uma equipe altamente propositiva: avança, toca bola lá na frente e vai abrindo espaço. Para manter essa pegada, Rogério Ceni promoveu uma mudança brusca no time: puxou Willian Arão para a zaga e colocou Diego como volante. Nesse contexto, ele ajudaria a melhorar a saída de bola e controlar o jogo, sabendo a hora de tocar pra frente, pra trás, dar um chutão...
Renato manteve a pegada. Só que o time jogou mal demais no primeiro tempo. É porque Diego é "velho" e não aguenta mais? Não! Pensar assim é sedutor, mas é pobre, pois não olha o contexto. E o contexto é que o Grêmio foi ótimo na primeira etapa: marcou de perto quem estava com a bola, obrigando Diego e avançar mais, como você vê na imagem.
É um contexto que o Diego não tá acostumado nos últimos anos. Não só ele: o Flamengo não está acostumado a enfrentar uma marcação tão agressiva nos seus volantes. Tanto é que o time que fez isso, o Internacional, aplicou 4 a 0 no Maracanã, roubando a bola desse centro e acionando em velocidade.
Olha aí o Diego ao lado do Éverton Ribeiro. Agora veja na frente: o Grêmio encaixotando toda a movimentação do Arrascaeta e o Gabigol, afastando Éverton do Bruno Henrique e deixando Diego longe do quarteto ofensivo.
Isso acontecia em todos os lados. Se Isla recebia a bola, Alisson descia e Rafinha já encaixava em Éverton Ribeiro. A dupla Diego e Arão jogou próxima, como fez em todos os jogos. O que mudou foi o contexto em que ela jogou.
O contexto do segundo tempo
Tudo parecia ir em ruínas quando Isla foi expulso. Afinal, jogar com um a menos é sempre mais difícil. É um pensamento lógico. Totalmente normal de se ter. Mas e o contexto de jogar com um a menos é o mesmo de jogar com onze?
Não! Tudo muda. O objetivo muda (empate passa a ser comemorado como vitória), o que muda o mental, que muda tudo. O adversário também muda e vai ficar mais com a bola e tentar atacar, ainda mais em casa. Renato leu exatamente isso ao colocar Thiago Maia e Michael.
Se o Grêmio ficaria mais com a bola, então já não era tão necessário um volante que controlasse o jogo. Também não era mais necessário ter aquela postura avançada e propositiva. Com Thiago Maia, o Flamengo se recolheu todo no seu campo e foi se defender...pensando também em atacar. Afinal, Thiago Maia é um roubador de bolas melhor que Diego. E Michael rende quando corre nos espaços e chega na área.
Com Maia ao lado de Arão, o poder de roubada de bola do Flamengo aumentava pelo centro. Já que o Grêmio ficava mais com a bola, avançava e dava espaço para Michael correr.
O truque foi a região de campo que essa roubada acontecia. Thiago Maia entrou para fechar o miolo do campo, a zona 14, onde Borja descia para receber o pivô. Ao fazer isso, ele ajudava a neutralizar a criação do Grêmio por dentro e provocava no adversário um contexto em que as jogadas terminavam ou pelo lado, ou em bolas longas.
Esse contexto favorecia o Flamengo, pois no lado tinha um velocista (Michael). E depois Vitinho. E depois outro velocista, Rodinei. A cada roubada de bola, eles poderiam correr pra área e explorar o espaço deixado por Rafinha e o outro lateral.
Adivinha como aconteceu o terceiro gol? Roubada de bola de Thiago Maia pelo centro, Vitinho acionado em velocidade na esquerda e Rodinei chegando na área, em velocidade, na direita.
O contexto do jogo e da vida
Se o Grêmio não fosse tão agressivo como foi o Inter, e fizesse como o Olímpia, que esperou o Flamengo, talvez Michael não tivesse brilhado. Ou Rodinei não tivesse feito gol. Porque o contexto em que eles realizavam as ações era diferente. Logo, o que um jogador faz ou deixa de fazer é fruto do contexto em que ele está inserido, não apenas de sua qualidade, seu dom ou seu "talento divino".
Esse olhar simplista e pobre que o brasileiro tem sobre futebol é uma constante em outras áreas da vida. Algo produzido culturalmente num país que nunca olhou para o todo e sempre preferiu o olhar localizado, que começou nas famílias e engenhos e é reflexo na escolha de governantes, ações de vida e também nos pedidos por demissões e contratações de técnicos para seu time.
Mas o treinador também é fruto do contexto. Sua ideia de jogo precisa casar com o elenco. Seu modo de liderar precisa estar de acordo com o perfil do clube e dos jogadores. Do mesmo modo que para entender um livro, é preciso saber do autor.
Comentários
Comentários (2)
Renato desrespeitou o grêmio com total vibração. Que baita gremista !!!!!!
Toda essa filosofia pra falar o basico.. Felipão escancarou o time e o Flamengo matou no contra ataque. Simples assim
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