Por anos, Luiz Felipe Scolari e Vanderlei Luxemburgo foram as grandes referências de treinadores no futebol brasileiro, com títulos nacionais, internacionais e carreira no exterior. Porém, a realidade atual é bem diferente. Longe do prestígio do passado, a situação mudou, e agora a dupla tem a dura missão de salvar Grêmio e Cruzeiro dos rebaixamentos às Séries B e C, respectivamente. Enquanto isso, eles também lutam pela classe dos experientes, cada vez mais fora do mercado no país.
Com 72 anos, Felipão é o técnico mais velho em atividade na elite do futebol brasileiro. O segundo é Luxemburgo, com 69. Fora Hélio dos Anjos, do Náutico, não há nenhum treinador com mais de 60 anos nas Séries A e B. O rejuvenescimento na função é mais uma tentativa de um país que busca soluções para um futebol melhor desde o fatídico 7 a 1 para a Alemanha na Copa do Mundo de 2014.
"Isso começou em 2014, quando se passou a atirar para todos os lados. Mas temos de respeitar a história de quem construiu o nosso futebol. É engraçado que muito se falou depois de 2014 que o futebol brasileiro precisava de uma reciclagem, mas nunca se fala em formação. Como vamos reciclar algo que não tem estrutura?", questiona o técnico Dorival Júnior.
Campeão da Copa do Brasil de 2010 com o Santos de Neymar, Dorival faz 60 anos em 2022. Seu último clube foi o Athletico na temporada passada. Desde então, ele faz companhia a vários veteranos que estão sem emprego, como Oswaldo de Oliveira e Marcelo Oliveira, ambos com conquistas importantes no país, ou Mano Menezes e Abel Braga, que estão em clubes do exterior após meses de ostracismo no Brasil.
Nem mesmo o histórico, normalmente um ponto de escudo para vários dirigentes, tem sido levado em consideração. Entre os 20 treinadores da Série A, apenas Felipão e Cuca já levantaram a taça de campeão brasileiro.
A aposta agora é em treinadores mais jovens, principalmente com menos de 50 anos. Eles são 13 na Série A, três deles com menos de 40: Maurício Barbieri, Eduardo Barroca e António Oliveira. Já a Série B repete o quadro com 13 treinadores com menos de 50, com destaque para o jovem Matheus Costa, de 34 anos, do Operário.
Uma das exceções no país, Hélio dos Anjos é o terceiro colocado na Série B com o Náutico. Terceiro treinador mais velho das duas primeiras divisões nacionais, ele aponta que há um preconceito contra os mais experientes, mas que isso não é somente no esporte.
"Eu vejo isso como uma questão que abrange mais do que o futebol. As pessoas de idade não têm o devido valor. É da sociedade. O tempo de trabalho, a sabedoria e tudo que a pessoa aprendeu ao longo da vida viram algo questionável, colocado em segundo plano. No futebol, não é diferente. É um preconceito bobo. Eu faço os cursos da CBF, como o Tite, mas futebol não se aprende só em cursos e faculdades. Eu também tenho meu conhecimento de 30 anos de vida no futebol".
A renovação no quadro de técnicos não é um fenômeno exclusivo do Brasil. Na Alemanha, por exemplo, não há nenhum treinador com mais de 60 anos na Bundesliga, com destaque para Julian Nagelsmann, de apenas 34 anos, que saiu do Leipzig para comandar o Bayern de Munique na próxima temporada.
Já nas outras ligas de expressão da Europa, a situação é um pouco diferente. Na Espanha e na França, há dois treinadores com mais de 60 anos, enquanto a Inglaterra conta com três. Já a Itália tem dado mais espaço aos experientes. São cinco técnicos com mais de 60 anos e oito entre 50 e 59 anos. É o país com a segunda maior média de idade entre as cinco principais ligas do futebol europeu.
Jovens também sofrem resistência
Terceiro técnico mais novo da Série A, Maurício Barbieri desponta como um dos principais nomes da nova geração. No comando do Red Bull Bragantino, o treinador tem conduzido o time que está na briga pelo título da Série A e da Copa Sul-Americana.
Treinador desde 2011, quando assumiu o Audax, Barbieri mudou de patamar em 2018 ao comandar o Flamengo após a demissão de Dorival Júnior. Desde então, tem alternado no comando de clubes da Série A. Barbieri reconhece que possui um perfil atrativo, mas aponta uma outra ideia dos dirigentes brasileiros.
"Acho que a competência deveria vir antes da idade. A avaliação precisa ser em cima da qualidade, não da idade. Temos treinadores experientes que são capazes de fazer ótimos trabalhos também. Mas o ciclo de treinador no Brasil é igual para todo mundo. Para mim, falta convicção aos dirigentes. No Brasil, os clubes contratam o personagem da moda. É muito mais pelos resultados do que por uma ideia em si".
Entre assumir o Bragantino este ano e a saída do Flamengo em 2018, Barbieri teve uma sequência de trabalhos curtos em Goiás, América-MG e CSA – experiências que ele lamenta pela falta de tempo, mas que foram importantes em sua formação.
"Hoje eu estou mais maduro, consigo tomar mais decisões com serenidade e tenho mais recursos com as ferramentas que a experiência me deu. O tempo sempre vai te dar bagagem. Tem uma frase bacana de que gosto muito: a sabedoria não vem pela experiência, mas, sim, por como você encara essas experiências. Isso eu coloco até nas minhas oportunidades no CSA e América".
Um dos desafios de Barbieri será se manter no grupo dos principais treinadores do Brasil, situação que não tem acontecido com outros jovens que perderam mercado com o passar dos anos, como Eduardo Baptista, Doriva, Rodrigo Santana, Jair Ventura, Zé Ricardo e Felipe Conceição.
Muitos deles foram alçados a treinador de forma interina e depois efetivados sem grande planejamento. Com exceção de Fábio Carille, campeão brasileiro com o Corinthians em 2017, e Jair Ventura, no Botafogo, nenhum sobreviveu ao cargo por uma temporada completa.
"Eles não se queimaram pelo lançamento. Foi o sistema. Eles não tiveram continuidade e oportunidade para mostrar suas qualidades. Nosso problema é que as pessoas tendem a avaliar o trabalho sem o contexto. Não leva em conta que clube tem atraso salarial, briga política, falta de logística, tempo para treinar e outros problemas. Não pode avaliar um profissional sem levar em conta todo o entorno".
Um dos casos mais recentes de um jovem treinador que perdeu espaço é Tiago Nunes. Após o início promissor no Athletico, com os títulos da Copa do Brasil e da Sul-Americana, o gaúcho, de 41 anos, teve passagens frustrantes por Corinthians e Grêmio e se encontra desempregado atualmente.
"Um treinador igual o Tiago Nunes é mau profissional? Ele era requisitado por todos os clubes do futebol brasileiro. Será que ele desaprendeu ou os clubes que estão errando? Pode ser que a gente perca mais uma geração de treinadores. Precisamos mudar a nossa leitura e entendimento de futebol. Olha o Eduardo Baptista. Hoje ele está bem no Mirassol porque o clube oferece condições para ele desenvolver e fazer o que sabe", diz Dorival Júnior.
Experientes em busca de modernização
Apesar de apontar a existência de um preconceito contra treinadores mais experientes, Hélio dos Anjos admite a necessidade de se adaptar ao novo momento. No mercado desde a década de 1980, ele tem usado a relação com o filho e assistente Guilherme dos Anjos para ter melhores resultados no Náutico.
"Eu tive de me adaptar e sei que preciso disso. Eu sou um pouco antigo, mas tenho o privilégio de trabalhar com meu filho. Ele queria ser jogador quando era novo, mas eu disse que ele não jogava nada e deveria estudar. Então ele decidiu estudar e em 2014 começou a trabalhar comigo. Isso me estimulou demais. Ele modernizou meu trabalho, minha influência com os jogadores e me abriu campo para eu conhecer outras áreas no futebol, como análise, fisiologia e desempenho. Isso eu mudei. Mas a última decisão é minha. Eu escuto, discuto, trabalho em cima dos números, mas eu preciso ter minha convicção e decidir com a minha cabeça".
Falta cobrança em diretores
Discussão experiência x juventude à parte, o único consenso entre os treinadores é a bronca em cima da relação com os dirigentes. Ao mesmo tempo em que se busca uma renovação de técnicos, a discussão praticamente inexiste sobre a preparação de presidentes, vices e diretores em geral.
"Falta um preparo maior de todos nós que fazemos futebol. É visível que a grande maioria dos dirigentes hoje não está preparada para pensar trabalhos e tomar ações. É uma gestão pensando em resultados e resultados ruins. Estamos caminhando em uma vala comum", define Dorival Júnior.
"Nosso futebol não tem projeto acima de três meses. Se é campeão regional, fica para o Brasileiro. Se vai bem no Brasileiro, fica para o ano seguinte. Mas o problema é que todo mundo acha que tem capacidade de ser campeão. Quase todos os dirigentes acham que têm clube para ser campeão, mas a gente sabe que só três ou quatro vão brigar mesmo. Por isso que estamos sempre sendo questionados e na corda bamba", completa o treinador.
Apesar de a CBF ter colocado no regulamento um limite para mudanças de treinador, a situação não gerou estabilidade. Na Série A, foram seis demissões: Alberto Valentim (Cuiabá), Lisca (América-MG), Miguel Angel Ramirez (Internacional), Tiago Nunes (Grêmio), Rogério Ceni (Flamengo) e Jair Ventura (Chapecoense).
Na Série B, a lista tem 13 demitidos: Felipe Conceição e Mozart (Cruzeiro), Marcelo Cabo (Vasco), Marcelo Chamusca (Botafogo), Pintado (Goiás), Wagner Lopes (Vila Nova), Rodrigo Chagas e Ramon Menezes (Vitória), Paulo Bonamigo (Remo), Rodrigo Santana (Confiança), Bruno Pivetti (CSA), Roberto Fonseca (Londrina) e Claudio Tencati (Brasil de Pelotas).
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