Dos Emirados Árabes, um ex-compaheiro de base acompanhou o sucesso recente de Endrick e Beraldo na Seleção de Dorival Júnior. Kaylan Henrique, um desconhecido do grande público, conviveu com a dupla em Palmeiras e São Paulo. Viu de perto a mentalidade dos dois. E, embora jovem, olhou para trás e percebeu onde deixou escapar (ou adiou) a chance de seguir caminho parecido. O zagueiro de 20 anos admitiu um comportamento agressivo no passado, mas diz que deixou o tempo de "bomba relógio" para trás e traz reflexões sobre a importância da psicologia aos atletas. Também lembrou os treinos com Beraldo e Endrick, a quem se referiu como um dos "reis do futebol". Kaylan Henrique passou pelas bases de Grêmio, Palmeiras, São Paulo e Vasco, entre outros, e deixou o país para estrear como profissional no Al Dhaid, dos Emirados Árabes. Uma história incomum, mas que também não foge tanto da realidade brasileira. Mais um jovem que, pelos próprios atos, como ele mesmo reconhece, desperdiçou oportunidades.
— No Brasil chegou um tempo que citavam meu nome e falavam: "poxa, um baita jogador, um talento, mas é uma bomba relógio. É um problema muito grande fora de campo". E não é por noitada ou drogas porque eu não bebo e não fumo, mas por comportamento — relembrou Kaylan em entrevista ao ge.
O zagueiro foi campeão da Copa do Brasil Sub-17 com o São Paulo em 2020, na mesma geração de Beraldo, do PSG, e Marquinhos, ex-Arsenal e hoje no Fluminense.
Um ano depois, chegou a atuar com Endrick, Jhon Jhon e Kevin, no Shakhtar Donetsk, no Paulistão sub-20 pelo Palmeiras. Kaylan é nascido em 2004 e Endrick em 2007. Apesar da diferença de idade, a nova estrela do futebol mundial já deixava claro o que faria no futuro.
Em alguns treinos, esteve até no profissional do Verdão. O jovem revela, inclusive, que tinha renovação engatilhada com o Palmeiras. Mas, uma falta a uma consulta com a psicóloga e a um teste de Covid-19 complicaram o futuro, conforme relato do jovem. Hoje, olha para trás e gostaria de ter aproveitado melhor o acompanhamento psicológico.
A psicologia ajuda bastante, cara. Só basta a pessoa aceitar que aquilo ali não é só para doido. Aquilo é porque, poxa, a gente é ser humano e precisa de ajuda. Esse comportamento era uma constante na época. O termo usado por Kaylan, "bomba relógio", era por conta do comportamento agressivo com colegas até e superiores dentro da hierarquia do vestiário. A criação mais rígida e o passado no bairro Segato, em Aracruz, no Espírito Santos, foram as justificativas dadas por Kaylan.
Desde então, Kaylan entende que evoluiu. Melhorou as relações internas e, nos Emirados, recebeu acolhimento. A intenção, inclusive, é defender a seleção do país. Os contatos já foram feitos, embora, claro, seja necessário cumprir o tempo de moradia até conseguir a cidadania. O jovem reconhece que tinha uma visão equivocada das sugestões dos clubes de consultar com psiquiatra e psicológa.
— Eu não aceitava. Eu tratava como se eu fosse um moleque diferente. Quando eles vinham com esse assunto de remédio, psiquiatra e psicológa, eu achava que eu tinha alguma coisa diferente. E eu falava: "poxa, cara, eu não sou doido". Só que, anos depois, você vê que faz falta e entende — disse Kaylan.
— Se eu pudesse voltar, eu aproveitaria todas as consultas. Eu acabei cabulando algumas. Porque eu achava que não fazia diferença. Algumas consultas, depois de muito tempo, fizeram abrir o olho sobre algumas situações em relação a mim mesmo que eu não conseguia enxergar.
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