Aos 41 minutos do segundo tempo, quando o Grêmio já vencia o Fluminense por 2 a 1, as arquibancadas se ergueram em sincera reação: Luan Guilherme de Jesus Vieira fora chamado para entrar em campo e voltaria a jogar com a camisa gremista após quatro anos. Voltaria a jogar futebol pela primeira vez desde o fim do ano passado. Do concreto, ecoava espontaneidade, mas havia também agradecimento, admiração, resgate da memória e talvez mesmo duas xícaras de esperança.
Era como se Luan estivesse retornando de um extenso período entregue ao departamento médico entre aqueles que o saudavam não havia sequer indício de que voltasse de longas e desastradas andanças em outros códigos postais, perto demais do sol e longe demais da Arena. Os últimos quatro anos da carreira do jogador eleito Rei da América em 2017 foram marcados por um ostracismo sem transição, aparentemente incontornável diante de episódios que expuseram sua vida pessoal. Do topo do continente, uma passagem expressa para o exílio.
A versão cômoda é de que a carreira de Luan nunca se consolidou, ao menos na medida em que seu futebol daqueles anos de Grêmio recomendava. Há, no entanto, uma beleza enviesada e quase transgressora quando nos deparamos com este tipo de jogador: o que triunfa em apenas um clube. E, assim, todo o caminho percorrido longe daquelas cores será tortuoso e torturante e, portanto, equivocado. A trajetória de Luan está bordada na perna do número 7 gremista e isso é exatamente o contrário da condenação, ainda que talvez tenha um quê de feitiço.
Não é possível saber com precisão o nível de expectativas que o Grêmio alimenta em relação a Luan voltar a apresentar um futebol semelhante ao que garantiu lugar nos murais (materiais e metafísicos) do clube. O que se percebe com certeza é que ao apostar em Luan em pleno 2023 o Grêmio presta reverência à sua própria identidade, trazendo um protagonista das últimas grandes glórias do clube para que seja amparado e admirado por sua própria gente, para quem a jornada derradeira contra o Lanús está compartimentada em um espaço muito específico de tempo mais presente que passado, mais prazer do que lembrança. E, neste recorte que flexiona calendários, Luan ainda aparece cintilante. Un pedazo de gol . Um pedaço da história.
Footer blog Meia Encarnada Douglas Ceconello — Foto: Arte
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